quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Violência em presídios femininos foi tema de workshop


Evento trouxe discussões sobre a invisibilidade social de mulheres em penitenciárias. Foram apresentados projetos ligados ao tema.


O Brasil tem a 4ª maior população carcerária do mundo, segundo o Ministério da Justiça, e a presença feminina no sistema prisional brasileiro vem aumentando consideravelmente. Isso é preocupante à medida que mais mulheres estão expostas às condições precárias das prisões. Seguindo o pensamento lombrosiano, mulheres que cometem crimes são julgadas duplamente, tanto por infringir leis jurídicas quanto por não seguir regras morais, que definem o sexo feminino como dócil e passivo. A perda do direito à maternidade, o abandono da família, o tratamento sexista e exagerado recebido dos agentes penitenciários e a perda da identidade são alguns dos problemas enfrentados por elas. Com a intenção de discutir a invisibilidade social que acompanha essas mulheres, foi realizado o workshop "Mulheres e castigo", nesta quarta-feira (25), na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Mediado por Katie Silene Cáceres Arguello, coordenadora do Núcleo de Criminologia e Políticas Criminais da Pós-Graduação em Direito da UFPR, o workshop contou com a apresentação de trabalhos ligados ao tema. Um deles foi a pesquisa realizada por Arguello, Mariel Muraro e Washignton Pereira. O projeto, criado em 2012, baseou-se em entrevistas realizadas com presas da Penitenciária Feminina do Paraná (PFP), localizada em Piraquara, e traz dados que chamam a atenção. De acordo com os pesquisadores, 91% delas foram condenadas por tráfico de drogas, mas cerca de 78% nunca tiveram contato com armas. Para Arguello, isso revela que "as mulheres são varejistas do tráfico", ocupando, ali, posições de submissão.

Katie Arguelo, Mariel Muraro e Washington Pereira comentam sobre o projeto realizado na Penitenciária Feminina do Paraná, localizada em Piraquara.

Mais um número que impressiona diz respeito aos direitos humanos: 51% das presas sentem que têm direitos violados. Para Pereira, a estatística não é ainda maior porque a violência é naturalizada dentro dos presídios. A pesquisa também indica que 97% delas não recebem visitas íntimas, número que reflete o abandono que essas mulheres sofrem por parte dos companheiros. Outro drama diz respeito à maternidade: muitas sofrem com a prisionalização das próprias crianças, que passam a carregar diversos estigmas.

O "Projeto TEATRO", criado em 2010, também foi apresentado durante o evento. A proposta faz parte do programa "Ciência e transcendência", da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), e consiste em aulas de teatro voltadas às presas da PFP. Toda sexta-feira, voluntários - grande parte, alunos da PUC-PR - vão ao presídio e ajudam mulheres a se redescobrirem através da expressão corporal. Segundo Sílvia Monteiro, que é uma das professoras, a tarefa é difícil, já que, devido ao enclausuramento e às repressões sofridas, as presas perdem a noção de espaço, a facilidade de interpretar textos e até a capacidade de olhar nos olhos. "É um desafio levar o teatro, que é a expressão da liberdade, a mulheres que têm seus corpos adestrados e silenciados", afirmou a professora.

No entanto, os resultados têm sido significativos. Monteiro contou que alguns dos avanços percebidos foram mudanças na linguagem, a volta de memórias e a reconstrução da liberdade interna das mulheres. Além disso, algumas das peças encenadas são escritas pelas próprias presidiárias.

Outro projeto interessante do "Ciência e transcendência" foi apresentado pela jornalista Michele Bravo. Voluntários selecionaram um grupo de detentas da PFP e realizaram um ensaio fotográfico com elas, que incluiu produção, troca de roupas e fotógrafos profissionais. A iniciativa procurou tirar as presidiárias das simples estatísticas, mostrando que cada uma delas tem identidade e singularidades. A jornalista mostrou relatos emocionantes de mulheres que já não se reconheciam mais. Uma das detentas ficou surpresa ao se ver no espelho após oito anos na prisão. Outra afirmou: "Eu gosto do jeito que vocês me olham. Vocês me olham como gente". Para Bravo, a iniciativa promoveu o resgate da autoestima e da autonomia das presas, que puderam escolher a roupa que iriam usar, por exemplo. "Pequenas escolhas tornam-se ferramentas para despertar reflexões sobre elas mesmas", explicou a jornalista.

Durante o workshop, os participantes interagiram com comentários, perguntas e contribuições. Inúmeras críticas foram feitas ao sistema prisional brasileiro, à ideia de meritocracia, que reafirmaria desigualdades sociais, e à proibição de drogas. Segundo Arguello, países que regulamentaram o consumo de drogas, como Portugal, conseguiram diminuir drasticamente os números da violência. Para a professora, acabar com a prática do punitivismo, tão pregado pelo Direito Penal, oferecer mais possibilidades de capacitação às presas e criar uma política de reinserção social efetiva são algumas das medidas essenciais para dar, a essas mulheres, perspectivas de vida pós-cárcere.

Críticas ao sistema penas brasileiro e à falta de políticas públicas voltadas ao tema foram feitas durante a discussão.


O workshop integrou a 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência, que contou com diversas palestras e debates acerca do enfrentamento da violência de gênero. O evento foi organizado pela Universidade Positivo em parceria com a Prefeitura de Curitiba, PUC-PR e UFPR.

Material produzido por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press.
Texto: Camilla de Oliveira
Fotos: Eduardo Vernizi

Dia da Não Violência Contra a Mulher é marcado pelo encerramento da Jornada que discutiu o tema





Foto: Karina Sonaglio 


A 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência iniciou na segunda-feira com uma palestra de Maria da Penha, mulher que incentivou a criação da lei que carrega o seu próprio nome. Foram três dias intensos com nove palestras, oito workshops, oito painéis, duas oficinas, e uma mesa-redonda, com especialistas e estudiosos, que debateram a situação da violência contra a mulher nos dias atuais. O evento foi realizado pela Prefeitura Municipal de Curitiba, em parceria com a Universidade Positivo e a Universidade Federal do Paraná. 
             A revista Entrelinha, produzida pelo curso de Jornalismo da Universidade Positivo, circulou nos três dias entre os participantes do evento. Reportagens especiais sobre o tema da Jornada e um guia com toda a programação foram inseridos na edição da revista especial deste ano.
A solenidade de encerramento aconteceu hoje, às 19h, no prédio histórico da Universidade Federal do Paraná. A data marca o Dia da Não violência Contra a Mulher. Autoridades envolvidas na 1ª Jornada estiveram presentes no encerramento: Roseli Isidoro, secretária municipal da mulher, o reitor da UFPR, Zaki Akel, o coordenador do curso de Psicologia da Universidade Positivo, Raphael de Lascio, o professor de História do Direito, Ricardo Marcelo Fonseca. Para representar a empresa Itaipu esteve presente Maria Helena Guarezia, e representando a empresa Correios, Ana Lúcia Jacobs.
Zaki Akel, reitor da UFPR, falou sobre a polêmica envolvendo a instituição referente ao sistema de cotas raciais adotado pela Universidade Federal do Paraná e afirmou que ainda há uma grande necessidade de questões raciais e de gêneros serem discutidas na sociedade, para que haja uma equidade de gênero e de raça. “Todos nós temos que melhorar a sociedade. O processo é lento, mas a luta continua”, afirmou o reitor da Universidade.  

Foto: Ana Paula Santos 
Roseli Isidoro, durante o seu discurso de encerramento, certificou que Curitiba está no caminho certo e citou os dados do Mapa da Violência, que neste ano focou em mostrar números referentes à violência contra mulheres no Brasil. “Não há o que comemorar, mas estamos no caminho certo com a queda de 5% da violência contra a mulher aqui em Curitiba". Ela também comentou que a Jornada gerou discussões sobre um tema tão emblemático e importante. Roseli disse ainda que não tem dúvidas de que a 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência contribuiu para sensibilizar as pessoas sobre esse tema. “O objetivo é que a gente possa cada vez mais comprometer a sociedade a refletir não só sobre as causas e efeitos, mas também poder compartilhar um pouco das experiências. E, sobretudo, a gente estimular as pessoas que participaram a pensar alternativas, propostas que talvez possam se tornar serviços capazes de conferir cada dia que passa mais segurança às mulheres em situação de violência", reafirmou Roseli. 
Sobre a participação de Maria da Penha na Jornada, Roseli disse que foi de extrema importância por ela ser um símbolo da luta feminina. "A vinda dela não foi só simbólica, mas também ela tinha um propósito de nos ajudar nessa frente de sensibilização e de comprometimento das pessoas, da sociedade civil, dos órgãos promotores e realizadores da Jornada para assumirem esse causa junto conosco."

Foto: Karina Sonaglio 


Textos e fotos produzidos por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Ana Paula Santos, Catherine Baggio e Karina Sonaglio. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press. 


Estudos sobre a realidade são apresentados no workshop referente à violência sexual



 
Foto: Sarah Menezes 


O workshop Violência Sexual, que aconteceu hoje no prédio da reitoria da UFPR, foi conduzido pela enfermeira e professora Marly Marton. Durante o evento, três trabalhos sobre o tema violência sexual foram apresentados por estudantes universitárias.
O primeiro, O Corpo Feminino Invadido: Os Marcos Da Violência Sexual Desveladas Pela Enfermeira, foi realizado por Maria Lúcia Raimondo e orientado pela professora Liliana Maria Labronici. Realizado entre abril de 2013 e agosto de 2014, o estudo traz uma análise feita com treze mulheres vítimas de violência sexual, todas moradoras de Guarapuava. As análises com as mulheres só inciavam depois de cento e vinte dias de serem violentadas, pois esse é período em que as pessoas que estão ao redor dessas mulheres já se esqueceram do fato. Mas ainda é um momento em que as vítimas estão muito fragilizadas. O principal objetivo do estudo é tentar compreender o corpo feminino violentado.
O resultado desse estudo foi especificado em quatro tópicos: Feridas Existenciais – em que as marcas da violência ficam no corpo e na alma como uma tatuagem que nunca sairá; Espelho – quando elas se olham no espelho e elas se lembram da violência que sofreram; Imagem Corporal – as mulheres percebem que o corpo por si só tem uma imagem distorcida do que ele realmente é e; Diante da Imagem – as vítimas conseguem preservar a esperança de um dia, todo o sofrimento se tornar apenas o passado.
Foto: Sarah Menezes 
O segundo estudo apresentado no workshop foi realizado por Lais Maria Peres, estudante de enfermagem da Unicentro, e o tema foi Caracterização de Mulheres Vítimas de Violência Sexual Atendidas no Serviço Especial na região Central do Paraná. Lais realizou uma pesquisa quantitativa descritiva e chegou a algumas conclusões com os dados que colheu com treze mulheres vítimas de violência sexual em Guarapuava. Das treze mulheres, oito delas sofreram a violência durante o dia. Três delas conheciam o agressor e quatro das mulheres foram violentadas dentro da própria casa.
O terceiro e último estudo foi realizado por Fabiana Taisa Lovato e o tema foi Violência Conjugal Contra a Mulher: Produção Brasileira. O objetivo do trabalho foi analisar produções de artigos que tratam da violência dentro da união conjugal. Com o estudo, foi possível fazer uma revisão literária de como esse tipo de violência é abordado nos artigos publicados entre o período de agosto de 2009 e agosto de 2014. Por meio desse estudo, Fabiana percebeu que existe uma escassez de pesquisas sobre o tema, e que, em sua maioria, outros tipos de abuso na relação conjugal são  mais abordados.
Foto: Sarah Menezes
Depois das apresentações, o médico do Hospital das Clínicas, Rosires Andrade, teve um momento de diálogo e interação com as participantes do workshop. A maioria das mulheres presentes no workshop eram enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais. O doutor Rosires iniciou a fala questionando  qual era o primeiro lugar a que uma mulher violentada deveria ir: delegacia ou hospital? O médico afirmou que o hospital é o lugar que as vítimas devem ir de imediato e que lá elas precisam de acolhimento. Além disso, doutor Rosires disse que o momento em que essas mulheres chegam ao hospital elas não devem ser questionadas, e que o principal a se fazer são os exames de imediato e logo em seguida é necessário realizar a medicação correta. É importante, também, lembrou o doutor Rosires, que a mulher não seja questionada sobre onde estava, e o que estava fazendo em tal lugar, pois certos questionamentos podem parecer  um julgamento das vítimas. O médico alertou ainda sobre os riscos e as situações de vulnerabilidade que a mulher enfrenta atualmente: “As mulheres podem andar onde quiserem, quando quiserem. Podem, mas não devem por causa da vulnerabilidade existente hoje em dia.”

Textos e fotos produzidos por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Ana Paula dos Santos, Sarah Menezes. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As diversas faces da igualdade de gênero

A igualdade de gênero é uma questão que pode – e deve - ser abordada de diferentes maneiras. Miriam Adelman, do Núcleo de Estudos de Gênero da UFPR, apresentou sua pesquisa em um dos painéis da Jornada Nacional Mulher Viver sem Violência com uma ótica oposta ao convencional. Relacionando machismo e feminismo com os animais, a pesquisadora contextualizou a relação entre o homem e a mulher com cavalos e apontou que, atualmente, a mulher está ganhando espaço nesse segmento e se mostrando eficiente para desenvolver atividades diversas com esses animais. Miriam ainda enfatizou o empoderamento da mulher enquanto estão montadas no cavalo e concluiu que políticas públicas de caráter terapêutico podem ser formas de intervenção e de valorização da mulher.








Dando continuidade ao tema, Elza Campos, que pertence ao Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Curitiba, apresentou os efeitos do capitalismo na sociedade. A assistente social ainda afirmou que a mulher é a principal vítima desses prejuízos causados pelo capital: além de ter sua força de trabalho alienada, elas sofrem com a apropriação do próprio corpo, sendo julgadas como uma mercadoria ou um objeto. Com uma visão ampliada, Elza apontou a solidariedade como solução, esclarecendo que é preciso educar a sociedade e contribuir para a liberdade feminina.
Gina Paladino, presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento, também participou do painel e mostrou a importância do empreendedorismo feminino. Além disso, Gina apresentou o Prêmio Empreendedora Curitibana e as formas utilizadas por esse programa para valorizar e incentivar o desenvolvimento de novos negócios chefiados por mulheres.
Maria Helena Guarezi finalizou o painel apresentando o programa de equidade de gênero que ela coordena na Itaipu Binacional. Maria Helena defendeu o estudo e a inserção de mulheres em todas as áreas de serviço e incentivou as mulheres a sair da invisibilidade e lutar por direitos.

Mulheres na luta


Na última tarde de acontecimento da 1º Jornada Nacional da Mulher- Viver sem Violência, a convidada da palestra ‘’Perspectivas para uma cultura de não violência contra as mulheres’’ foi a antropóloga e professora Rita Laura Segato. O surgimento do movimento feminista em guerrilhas e as iniciativas dentro de aldeias indígenas, como divulgar a Lei Maria da Penha entre as mulheres das tribos, foram alguns dos principais temas discutidos.



A palestrante falou sobre o “controle mafioso dentro da sociedade”, conceito que trata de uma visão deturpada quando pensamos em crime no Brasil e não percebemos muitas vezes o Estado como criminoso: “O Brasil é um país que não tem espelho, ele não se enxerga”. 

Ressaltou que é necessário inserir as questões da mulher no Estado, que insiste em empurrar essas discussões para o âmbito doméstico, romantizando a questão de gênero e a impunidade. Também apontou um crescimento proporcional entre programas de proteção à mulher em relação ao número de crimes. Mesmo com o surgimento dessas iniciativas, a violência continua  atingindo números exorbitantes, como na Bolívia, onde a taxa de feminicídio é a 
maior da América.

Ao citar seu trabalho de pesquisa sobre a Guatemala, Rita Segato explicou a trágica condição feminina na guerra. “Levaram a violência contra o corpo da mulher como uma estratégia de guerra; ao anexarem territórios, anexavam também os corpos das mulheres”. 

No término da palestra, a antropóloga foi direta e enfática. “O feminismo tem que sair da poltrona, estamos muito longe de entender o que realmente acontece. Matar é “bom” porque é um espetáculo. Tudo o que é um espetáculo na sociedade é considerado bom”.


Oficina analisa e desconstrói estigmas sobre a luta das mulheres negras


Com o nome "Mulheres Negras: Subjetividades E Resistências As Violências", oficina ministrada pela socióloga Andressa Ignacio teve como objetivo debater as diferentes estratégias de enfrentamento das violências empreendidas pelas mulheres negras.


Com especialização em gênero, corpo, sexualidade e saúde, Andressa Ignacio debateu com os participantes como as mulheres negras atuaram em diferentes formas de ativismo e empoderamento para superação das diferentes violências e opressões que vivenciam no dia-a-dia.


Um dos exemplos usados pela socióloga foi o discurso de Sojourner Truth, ativista dos direitos das mulheres negras nos Estados Unidos em 1851, durante uma convenção sobre direito das mulheres: “Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas. Ninguem jamais me ajudou. Sempre trabalhei no campo, na colheita de celeiros. E não sou uma mulher?”


Além de abordar revoltas históricas de coletivos feministas, a oficina também discutiu a forma como a mídia retrata o papel feminino negro na sociedade. “Nas novelas, só vemos atrizes negras em papéis menores, como empregadas ou mulheres submissas. Quantos negros são protagonistas?”, perguntou Andressa Ignacio aos presentes.


Ao fim da oficina, a mediadora abriu para perguntas e depoimentos dos participantes. “Foi uma experiência enriquecedora. Depois de hoje, eu tenho uma outra visão sobre a luta de igualdade das mulheres”, relatou o Guarda Municipal Edmar Aquino.

Mesa-redonda trata “Sobre Humanos e outros animais: construindo subjetividades e práticas não violentas”


Realizada nesta quarta, 25, no painel 8 na Reitoria da Universidade Federal do Paraná – UFPR, a mesa-redonda trouxe assuntos diferentes relacionados à mulher. O debate foi mediado pela Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo, Amélia Siegel Corrêa.
Iniciou a discussão, Miriam Adelman, que é socióloga pela Universidade Nacional Autônoma do México e o M.Phil. em Sociologia da University, doutora em Ciências Humanas pela UFSC e que atualmente trabalha no Núcleo de Estudos de Gênero da UFPR. Adelman expôs seus estudos acerca da relação de harmonia gerada pelo contato entre humanos e animais. "Há algo subversivo em pensar as relações entre humanos e os animais”. Disse que “a violência entre outras relações é canalizada como o esporte” e que há uma socialização dos meninos com a violência. Por meio de estudos de outros pesquisadores, citou o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) criador de uma teoria social inovadora, acerca da interação humana na sociedade. Disse Elias, a partir de um estudo do campo esportivo, que o cavalo, que antes era visto como um animal de guerra, agora seria um animal de lazer e que, no seu estudo, meninos que aprendessem a cuidar e treinar cavalos poderiam crescer como sujeitos cuidadosos com o ser próximo.

Miriam Adelman, ao expor seus estudos "Sobre Humanos e outros animais"

Miriam explicou que há uma grande preocupação com a sociedade do século XX, além de citar várias vezes que nossa sociedade é uma “máquina de produção que cria mulheres aptas a cuidar dos outros, dos filhos”. Diz que o processo de feminização é bem maior nos Estados Unidos, do que no Brasil, onde há uma evolução lenta, além de ser mais complexo.
Ela finalizou, dizendo que é preciso aprender outras maneiras de ''ser'' e que o estudo de Elias, aprendendo a montar e treinar cavalos, se também realizado com meninas, pode fazer com que ganhem confiança, envolvendo a razão, emoção e o corpo.


A segunda participante da mesa-redonda, foi Elza Campos, assistente social, presidente da UBM e vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Curitiba. Ela é militante do PCdoB e luta pelo direito das mulheres há 20 anos. Elza iniciou falando da necessidade de se construir uma cultura de não violência e que as leis do capitalismo contribuíram para tal, “mesmo com uma sociedade diferente, a cultura da gente vai estar mantida”.

Falou, ainda, que o trabalho pauta nossa sociedade e que, além de o trabalho produzir uma alienação, há uma apropriação do corpo. “A mulher é vista apenas como corpo, objeto e mercadoria. E a própria internet tem feito essa 'coisificação'. Elza explica, também, que a violência aumentou, em quase 60%, contra mulheres negras e cita o racismo praticado contra a atriz global Taís Araújo. Explicou sobre a luta em que “precisamos reconhecer a ajuda e ajudarmos os outros”, trazendo a questão “como romper com esses aprisionamentos e nos tornarmos sujeitos políticos?”. Assim, “uma das questões centrais é contribuir para que aquela companheira possa se sentir à vontade e denunciar.”

“Prêmio Empreendedora Curitibana” foi tema da Gina G. Paladino, economista e presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento e que está há 30 anos no meio do empreendedorismo. Apresentou a cartilha da mulher, com as pesquisas internacionais sobre premiação em empreendedorismo e deu ênfase às mulheres curitibanas que trazem ideias empreendedoras. Explicou acerca do aumento das mulheres no mercado de trabalho e que elas têm melhores condições de empreender.  "Há  mulheres participando em massa de cursos de capacitações”. Em pesquisas foi feito um mapeamento dos locais e setores em que houve mais empreendedorismo. Apresentou as 9 finalistas do concurso que elegeria as empreendedoras curitibanas com as melhores ideias. “Ganharam os prêmios, avançaram nos seus negócios e  estamos ainda colaborando com elas.” Assim, é possível “identificar e dar visibilidade às nossas empreendedoras curitibanas e fazer a diferença”.

July Anne Fernandes
Francisco Mateus


Estereótipos de gênero são discutidos em evento contra a violência à mulher

Na tarde do dia 25 de novembro aconteceu a Oficina Masculinidades, do prédio da reitoria da UFPR. O evento, que faz parte da 1ª Jornada Nacional da Mulher Viver Sem Violência, teve como objetivo a discussão dos ideais heteronormativos de masculinidade nas relações sociais e de gênero, assim como nas relações afetivas.
Foto: Sarah Menezes


A oficina foi ministrada pela professora do Departamento de Antropologia da UFPR, Fernanda Azeredo de Moraes, e por Mariana Corrêa de Azevedo, que é pesquisadora do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR.
O encontro acabou se tornando um grande bate-papo entre os presentes. Foram compartilhadas experiências e discutidas questões que tinham como foco principal os estereótipos de gêneros no Brasil. Fernanda defendeu que não devemos nos conformar com as relações culturais que determinam que os homens devem ser vistos como agressores, da mesma maneira que mulheres devem ser vistas como vítimas. Isso não pode ser usado como explicação.
Foto: Sarah Menezes




Foi posto em discussão o fato de que, em meio a tantos debates sobre o destino corporal das mulheres, o destino sexual dos homens ainda não é desafiado em fóruns acadêmicos ou outros espaços. A masculinidade naturalizada tem permanecido fechada pra investigação e análise, e foi isso que a oficina buscou desafiar e discutir.
Os conceitos de gênero são frequentemente impostos pela sociedade, ignorando o fato de que a identidade de gênero é independente do sexo anatômico-biológico e do desejo sexual.
É imposto que o homem seja forte, racional, heterossexual e provedor da família. Uma vez discutidas tais circunstâncias, foi relacionado o comportamento masculino à violência sexual e ao medo que  leva a mulher ao consentimento e à conivência em determinadas situações.









Foto: Sarah Menezes
No entanto, Fernanda salientou que a mudança social necessária não deve ser uma luta das mulheres. 
"Não adianta só a mulher querer mudar o homem, os homens que precisam refletir e querer mudar", explicou a professora.








Foto: Sarah Menezes



















Texto e fotos produzidos por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Catherine Baggio e Sarah Menezes. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press.

Sociedade civil e necessidade de prevenção

A advogada internacional e professora de direitos humanos, Helena de Souza Rocha, esteve no prédio histórico da UFPR nesta tarde de quarta-feira para esclarecer questões sobre a postura do estado com relação à violência de gênero. Além de contar alguns casos extremos (tanto nacionais quanto internacionais) em que o estado falhou para com o dever de prevenção e da realização de tais direitos humanos, discorreu sobre a importância da integridade física e psicológica das mulheres que sofrem com isso e a sua participação no desenvolvimento das imposições contra a discriminação.



Com um público variado que lotou o Salão Nobre da universidade (inclui-se nesse público a presença de crianças em excursão escolar), a palestrante abriu espaço para um debate durante e após o seu discurso. Entre esclarecimentos sobre leis, termos e situações, questionou o funcionamento da lei Maria da Penha e expôs o número alarmante de mulheres que são estupradas no Brasil a cada ano. Esse número gira em torno de 500 mil. Disse, ainda, para ressaltar a força desse massacre: "ao menos um terço das mulheres que ocupam este salão já sofreram ou sofrerão algum tipo de abuso. Têm ao menos uma história desumana para contar."


O que é, exatamente, a discriminação? O que é sociedade civil? Será que o conjunto das organizações e instituições cívicas cumprem o seu papel a favor das mulheres? Helena faz uma reflexão com base nesses aspectos para analisar o desenvolvimento da desigualdade e cada uma das mulheres, em diferentes perspectivas. A necessidade de prevenção é real e grande, e ainda não é considerada devidamente.


(Texto e Fotos produzido pela aluna do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Giovana Godoi - sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo – Central Press)

Patrulha Maria da Penha ganha destaque entre políticas de enfrentamento à violência doméstica

Tanto a palestra com Helena Berro quanto o painel da manhã de hoje abordaram as políticas públicas existentes para diminuir e erradicar a violência contra mulheres. Os dois eventos fizeram parte da Jornada Mulher Viver Sem Violência, na Universidade Positivo. O Brasil, que estava em 7º lugar em índices com maiores números de violência, passou para 5º lugar, com uma taxa de 4,8 homicídios para cada 100  mulheres. Helena também apresentou outro número preocupante: o aumento de 54% de homicídios de mulheres negras. Entre as mulheres brancas, houve uma diminuição de 9,8 % de assassinatos.
Mulheres discutem em painel políticas públicas para o combate à violência contra a mulher. Foto: Davi Carvalho

Além disso, estima-se que a cada ano no Brasil ocorram 527 mil tentativas de estupro dos quais cerca de 10% são denunciadas. Helena frisou a importância das políticas públicas de enfrentamento à violência e mostrou um gráfico de algumas dessas políticas tomadas ao longo dos anos, como  o Ligue 180, que atende 2025 mulheres ao dia, e serve como uma ferramenta histórica para ajudar mulheres que sofrem agressões. A palestrante também falou sobre a importância da Jornada Mulher Viver sem Violência como “uma contribuição para a história”.
Helena explicou sobre a Casa da Mulher Brasileira, uma iniciativa do governo federal, que auxilia mulheres que sofrem violências, com ajuda especializada. Ela fica localizada em Campo Grande, porém, existem projetos para vários municípios. A palestrante frisou a necessidade de um atendimento humanizado e especial com essas mulheres, portanto o treinamento de todos os envolvidos da Casa é voltado à sensibilidade e ao cuidado.
Além de políticas públicas, outros temas como a formação do cidadão foram pauta e assuntos debatidos no painel.
Foto: Davi Carvalho 

A inspetora Cleusa Pereira da Guarda Municipal de Curitiba e coordenadora da patrulha Maria da Penha explicou todo o processo desse serviço que, em 1 ano e 8 meses de funcionamento, já atendeu 6 mil mulheres com medidas protetivas. Ela explica que o treinamento dos patrulheiros é especializado e atualmente existem quatro equipes treinadas para o atendimento com intuito de proteger a vítima. 

A patrulha Maria da Penha promove visitas nas casas das mulheres que já conseguiram medidas protetivas. Segundo Cleusa, o primeiro contato, a primeira visita na casa dessas mulheres é a mais importante, pois ela já está tão fragilizada com toda a situação que é necessário criar um laço, uma sensação de segurança com essa vítima. “É essencial estabelecer uma relação e comprometimento com a mulher”. Se a mulher relata que o agressor persiste nas ameaças, essa é uma vítima que eles terão que acompanhar mais de perto, fazer visitas semanais e estar sempre atentos.

Cleusa Pereira fala para o público os números de casos de violência doméstica 
que a Patrulha Maria da Penha combateu em Curitiba. 
Foto: Davi Carvalho

Integrantes da Patrulha Maria da Penha de Curitiba fizeram parte da plateia em painel. Foto: Davi Carvalho

O painel também contou com uma palestrante que falou sobre a Casa de Passagem Feminina LBT, que é a primeira casa do Brasil que atende a população de rua com o reconhecimento de gênero (o qual as expõe  a mais fatores de risco). A casa tem mais de 15 mil acompanhamentos desde 2013 e prioriza o enfrentamento à desigualdade de gênero na América Latina. Ela também falou sobre a questão do atendimento especializado e cauteloso com essas mulheres, além da necessidade de criar institucionalidade, engajamento tanto de agentes públicos como da sociedade, de políticas para as mulheres para que haja um estado forte e democrático de direitos que diga “violência à mulher nós não toleramos”. 


(Texto e Fotos produzido por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Davi Carvalho e Gabriela Menta - sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo – Central Press)

Painel debate ações jurídicas para a defesa da mulher

Evento reuniu representantes de diversas áreas jurídicas no auditório do bloco bege da UP


“A violência contra a mulher é um tema que sofre com a cegueira do sistema penal”. A frase da presidente da Comissão de Estudos de Violência de Gênero da OAB-PR, Lia Bazzo Barwinski, deu início ao painel número 6 da 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência. Para Lia, a área do direito penal ainda sofre por conta de pontos de vista machistas e lacunas na Lei Maria da Penha. A promotora do Ministério Público do Paraná, Mariana Seifert Bazzo, afirmou que a violência de gênero é algo naturalizado na sociedade, o que leva a uma deficiência na investigação e punição desses casos.

A representante do MP-PR, Mariana Seifert Bazzo, afirmou que a Lei Maria da Penha deve ser aplicada com foco na condenação e punição dos acusados.


A necessidade do trabalho conjunto entre os poderes Legislativo e Judiciário na criação e implementação de políticas públicas visando à proteção e empoderamento das mulheres vítimas de violência também foi tema do debate. Entre os projetos apresentados no evento, destaca-se a assessoria jurídica popular, disponibilizada para mulheres em situação de violência pela Universidade Federal do Paraná. Guilherme Brenner Lucchesi, professor do Núcleo de Práticas Jurídicas da UFPR, ressaltou que apesar de a Lei Maria da Penha ser conhecida por quase 98% da população brasileira, a maioria das pessoas ainda não compreende como ela funciona na prática. É justamente esse serviço que o projeto oferece, auxiliando mulheres durante o processo jurídico.  A assessoria ainda oferece apoio às mulheres por meio de programas de inserção no mercado de trabalho e de acesso à habitação, projetos esses desenvolvidos com a parceria da Prefeitura de Curitiba.

Para fechar o debate, a desembargadora do Tribunal de Justiça do Paraná, Lenice Bodstein, apresentou um breve histórico da inserção da mulher como cidadã na sociedade. Ela ressaltou que, mesmo com várias leis de proteção à mulher, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, os preconceitos e estereótipos ainda são transmitidos entre a população, tornando necessária não só a punição penal, mais também o acesso à informação sobre a violência de gênero.

Para os convidados, o importante é mudar a cultura do machismo
e que políticas públicas sejam aplicadas em conjunto com a lei.

Representante da Casa Nacional da Mulher fala sobre Políticas Públicas

      O último dia da 1ª Jornada da Mulher Viver Sem violência, abordou políticas públicas para enfrentar a violência contra as mulheres.
      Nesta quarta-feira, dia 25 de novembro, para o encerramento da 1ª Jornada da Mulher Viver Sem Violência, a palestra sobre Políticas Públicas criadas para enfrentar a violência contra as mulheres, foi apresentada por Eloise Castro Berro, representante da Casa Nacional da Mulher em Campo Grande, São Paulo. Na casa, as mulheres em situações de risco são acolhidas e recebem tratamento psicológico e judicial. Eloise também contou as experiências vividas no trabalho diário na casa e algumas histórias vivenciadas no cotidiano.


      A abertura contou com a apresentação da artista plástica Marlene de Oliveira, que passou por situações de violência e deu a volta por cima. Representou essa libertação de opressão com uma dança cigana, acorrentada, que no fim solta-se das correntes significando a libertação. Encerrou com o grito de todas as mulheres: “Viva a nossa liberdade”.


     Para Eloise, ainda há relações desiguais na nossa sociedade, que é uma sociedade machista e patriarcal. Essas desigualdades estão presentes no trabalho, na educação, política, saúde e no próprio lar. Para ela, ainda há o empoderamento do menino, desde a infância, como alguém imune de tarefas domésticas e afazeres em casa, por exemplo. “Precisamos de politicas públicas, não de políticas pontuais”, defende.
      Durante sua palestra, Eloise expôs vários dados com relação à violência contra a mulher no país. Em um deles, com relação aos estupros, estima-se que 527 mil casos ou tentativas aconteçam todos os anos no Brasil. Para Eloise, boa parte deles não é denunciada por conta do medo.


    É nesse ponto que a Casa da Mulher Brasileira entra. Apenas no primeiro semestre de 2015, o Ligue 180 fez 364.675 atendimentos. Por mês, são 60.771 e por dia, 2. 025.





(Texto e Fotos produzido por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Bianca Ogliari, Leonardo Mion e Dayane Ferreira - sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo – Central Press)

Criminalização da violência contra a mulher tem raízes históricas, segundo advogada

Palestra de Clara Maria Roman Borges

“A lei do feminicídio é importante, mas temos que mudar a cultura”, foi a conclusão da palestra de Clara Maria Roman Borges, professora de Direito da Universidade Positivo e da Universidade Federal do Paraná. A palestra abriu o painel sobre a criminalização da violência contra as mulheres e abordou a aplicação e a contextualização das leis. Segundo a palestrante, a lei do feminicídio, sancionada em março deste ano, tem raízes nos movimentos feministas brasileiros.


Para ela, as mulheres nos movimentos revolucionários da ditadura foram importantes para a criminalização da violência


Uma das protagonistas desses movimentos que começaram antes do Estado Novo foi Bertha Lutz, que lutou pelo voto feminino e pela igualdade de gêneros. Durante a palestra, a professora de Direito Penal também mencionou as mulheres que lutaram contra a ditadura militar. De acordo com ela, o feminismo não era um assunto discutido no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos e Europa. A palestrante também lembrou que, mesmo nos movimentos revolucionários durante a ditadura militar, havia muito machismo e as mulheres não tinham espaço.



"Lei Maria da Penha não alterou a cultura", diz Clara Maria Roman Borges

Após a ditadura, os movimentos feministas passaram a ter força no Brasil, mas havia muitas divergências. Clara Maria Roman Borges apontou que a violência contra a mulher e a necessidade de criminalizá-la eram o ponto de convergência entre as três principais vertentes do feminismo brasileiro. A partir de uma delas é que surgiram as leis Maria da Penha e do feminicídio, para diminuir as diferenças entre homens e mulheres na aplicação das demais leis. No entanto, para Clara, o direito é o “caminho mais difícil para mudar uma coisa que é cultural”. Ela acredita que as leis devem ser aplicadas, mas não promovem a mudança cultural necessária para combater a violência de gênero.


Texto e fotos produzidos por alunas do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Hannah Cliton e Georgia Imaregna. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

“As mulheres não se sentem mais capazes de parir”, afirma fotógrafa departos humanizados


Workshop sobre parto humanizado contou com apresentação de projetos e discussões sobre o tema. Evento integrou 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência

A discussão sobre parto humanitário e violência obstétrica vem ganhando cada vez mais espaço. Uma pesquisa realizada em 2010, pela Fundação Perseu Abramo, mostra que 25% das brasileiras já sofreram algum tipo de violência obstétrica, especialmente na rede pública (27%). Isso revela que tanto a negligência em hospitais quanto a falta de apoio às gestantes fazem com que mais mulheres sofram durante a gravidez. Esse foi o tema discutido no workshop “Crítica Cultural Feminista”, realizado nesta terça-feira (24) na Universidade Positivo e mediado por Lennita Oliveira e Amélia Siegel. O evento fez parte da 1ª Jornada Nacional Mulher Sem Violência.
Durante o workshop, foram discutidos três trabalhos relacionados à humanização do parto. A fotógrafa Márcia Kohatsu apresentou seu projeto “À luz do parto”, uma série de fotos acompanhada dos relatos de grávidas que optaram por parir de forma “humanizada”. Ela comentou que, antes de conhecer mais sobre essa prática, via a cesárea como o modo ideal de parto, teoricamente sem dor ou preocupação. Foi após sofrer um aborto espontâneo que ela buscou informações: “Descobri um novo universo de mulheres que estavam parindo em casa”, contou.


Márcia Kohatsu contou detalhes sobre "À luz do parto", projeto fotográfico sobre partos humanizados. A fotógrafa planeja montar uma exposição com as imagens.

A doula Nitiananda Fuganti, participante do workshop, ressalta que a concepção de violência obstétrica “é complicada”, já que envolve dois extremos. Enquanto os médicos veem o parto normal como um risco e recebem pouco para realizá-lo, as mulheres sofrem pressões diversas e não têm seus desejos atendidos. Outra questão é que essa prática ainda é elitizada, pois exige um maior acesso à informação e apoio financeiro. Niti, como é chamada, também ressalta que a humanização não tem como objetivo desvalorizar a tecnologia e os avanços na medicina, sendo bem mais uma questão de escolha da mulher. "O parto é uma jornada, no processo e no emponderamento da mulher e não acaba no nascimento", garante a coordenadora da Casa Mãe.
Kohatsu explicou que, atualmente, muitas mulheres não se sentem mais capazes de passar por um parto natural porque criou-se a ideia de que é arriscado ter um filho fora do hospital. Para ela, isso é um problema à medida que impõe a cesárea como um modelo a ser seguido por todas as mulheres. “Hoje, parir é um ato político, é uma desobediência civil”, afirmou a fotógrafa.

Durante a apresentação dos projetos, as treze participantes interagiram através de comentários, questionamentos e reflexões sobre os temas tratados. Ao fim das apresentações, elas fizeram uma roda de debate e continuaram as discussões, que abordavam, além de parto humanizado, outros temas ligados ao empoderamento das mulheres.
A 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência vai até o dia 25 deste mês e ainda contará com palestras e workshops ministrados por  grandes nomes, desde o Legislativo até representantes de causas sociais.  O evento está sendo organizado pela Universidade Positivo em parceria com a Prefeitura de Curitiba, Pontifícia Universidade Católica e Universidade Federal do Paraná.

Amélia Siegel, uma das mediadoras do workshop.

Texto e fotos produzidos por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Ana Martins e Camilla de Oliveira. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press.