quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Violência em presídios femininos foi tema de workshop


Evento trouxe discussões sobre a invisibilidade social de mulheres em penitenciárias. Foram apresentados projetos ligados ao tema.


O Brasil tem a 4ª maior população carcerária do mundo, segundo o Ministério da Justiça, e a presença feminina no sistema prisional brasileiro vem aumentando consideravelmente. Isso é preocupante à medida que mais mulheres estão expostas às condições precárias das prisões. Seguindo o pensamento lombrosiano, mulheres que cometem crimes são julgadas duplamente, tanto por infringir leis jurídicas quanto por não seguir regras morais, que definem o sexo feminino como dócil e passivo. A perda do direito à maternidade, o abandono da família, o tratamento sexista e exagerado recebido dos agentes penitenciários e a perda da identidade são alguns dos problemas enfrentados por elas. Com a intenção de discutir a invisibilidade social que acompanha essas mulheres, foi realizado o workshop "Mulheres e castigo", nesta quarta-feira (25), na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Mediado por Katie Silene Cáceres Arguello, coordenadora do Núcleo de Criminologia e Políticas Criminais da Pós-Graduação em Direito da UFPR, o workshop contou com a apresentação de trabalhos ligados ao tema. Um deles foi a pesquisa realizada por Arguello, Mariel Muraro e Washignton Pereira. O projeto, criado em 2012, baseou-se em entrevistas realizadas com presas da Penitenciária Feminina do Paraná (PFP), localizada em Piraquara, e traz dados que chamam a atenção. De acordo com os pesquisadores, 91% delas foram condenadas por tráfico de drogas, mas cerca de 78% nunca tiveram contato com armas. Para Arguello, isso revela que "as mulheres são varejistas do tráfico", ocupando, ali, posições de submissão.

Katie Arguelo, Mariel Muraro e Washington Pereira comentam sobre o projeto realizado na Penitenciária Feminina do Paraná, localizada em Piraquara.

Mais um número que impressiona diz respeito aos direitos humanos: 51% das presas sentem que têm direitos violados. Para Pereira, a estatística não é ainda maior porque a violência é naturalizada dentro dos presídios. A pesquisa também indica que 97% delas não recebem visitas íntimas, número que reflete o abandono que essas mulheres sofrem por parte dos companheiros. Outro drama diz respeito à maternidade: muitas sofrem com a prisionalização das próprias crianças, que passam a carregar diversos estigmas.

O "Projeto TEATRO", criado em 2010, também foi apresentado durante o evento. A proposta faz parte do programa "Ciência e transcendência", da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), e consiste em aulas de teatro voltadas às presas da PFP. Toda sexta-feira, voluntários - grande parte, alunos da PUC-PR - vão ao presídio e ajudam mulheres a se redescobrirem através da expressão corporal. Segundo Sílvia Monteiro, que é uma das professoras, a tarefa é difícil, já que, devido ao enclausuramento e às repressões sofridas, as presas perdem a noção de espaço, a facilidade de interpretar textos e até a capacidade de olhar nos olhos. "É um desafio levar o teatro, que é a expressão da liberdade, a mulheres que têm seus corpos adestrados e silenciados", afirmou a professora.

No entanto, os resultados têm sido significativos. Monteiro contou que alguns dos avanços percebidos foram mudanças na linguagem, a volta de memórias e a reconstrução da liberdade interna das mulheres. Além disso, algumas das peças encenadas são escritas pelas próprias presidiárias.

Outro projeto interessante do "Ciência e transcendência" foi apresentado pela jornalista Michele Bravo. Voluntários selecionaram um grupo de detentas da PFP e realizaram um ensaio fotográfico com elas, que incluiu produção, troca de roupas e fotógrafos profissionais. A iniciativa procurou tirar as presidiárias das simples estatísticas, mostrando que cada uma delas tem identidade e singularidades. A jornalista mostrou relatos emocionantes de mulheres que já não se reconheciam mais. Uma das detentas ficou surpresa ao se ver no espelho após oito anos na prisão. Outra afirmou: "Eu gosto do jeito que vocês me olham. Vocês me olham como gente". Para Bravo, a iniciativa promoveu o resgate da autoestima e da autonomia das presas, que puderam escolher a roupa que iriam usar, por exemplo. "Pequenas escolhas tornam-se ferramentas para despertar reflexões sobre elas mesmas", explicou a jornalista.

Durante o workshop, os participantes interagiram com comentários, perguntas e contribuições. Inúmeras críticas foram feitas ao sistema prisional brasileiro, à ideia de meritocracia, que reafirmaria desigualdades sociais, e à proibição de drogas. Segundo Arguello, países que regulamentaram o consumo de drogas, como Portugal, conseguiram diminuir drasticamente os números da violência. Para a professora, acabar com a prática do punitivismo, tão pregado pelo Direito Penal, oferecer mais possibilidades de capacitação às presas e criar uma política de reinserção social efetiva são algumas das medidas essenciais para dar, a essas mulheres, perspectivas de vida pós-cárcere.

Críticas ao sistema penas brasileiro e à falta de políticas públicas voltadas ao tema foram feitas durante a discussão.


O workshop integrou a 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência, que contou com diversas palestras e debates acerca do enfrentamento da violência de gênero. O evento foi organizado pela Universidade Positivo em parceria com a Prefeitura de Curitiba, PUC-PR e UFPR.

Material produzido por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press.
Texto: Camilla de Oliveira
Fotos: Eduardo Vernizi

Dia da Não Violência Contra a Mulher é marcado pelo encerramento da Jornada que discutiu o tema





Foto: Karina Sonaglio 


A 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência iniciou na segunda-feira com uma palestra de Maria da Penha, mulher que incentivou a criação da lei que carrega o seu próprio nome. Foram três dias intensos com nove palestras, oito workshops, oito painéis, duas oficinas, e uma mesa-redonda, com especialistas e estudiosos, que debateram a situação da violência contra a mulher nos dias atuais. O evento foi realizado pela Prefeitura Municipal de Curitiba, em parceria com a Universidade Positivo e a Universidade Federal do Paraná. 
             A revista Entrelinha, produzida pelo curso de Jornalismo da Universidade Positivo, circulou nos três dias entre os participantes do evento. Reportagens especiais sobre o tema da Jornada e um guia com toda a programação foram inseridos na edição da revista especial deste ano.
A solenidade de encerramento aconteceu hoje, às 19h, no prédio histórico da Universidade Federal do Paraná. A data marca o Dia da Não violência Contra a Mulher. Autoridades envolvidas na 1ª Jornada estiveram presentes no encerramento: Roseli Isidoro, secretária municipal da mulher, o reitor da UFPR, Zaki Akel, o coordenador do curso de Psicologia da Universidade Positivo, Raphael de Lascio, o professor de História do Direito, Ricardo Marcelo Fonseca. Para representar a empresa Itaipu esteve presente Maria Helena Guarezia, e representando a empresa Correios, Ana Lúcia Jacobs.
Zaki Akel, reitor da UFPR, falou sobre a polêmica envolvendo a instituição referente ao sistema de cotas raciais adotado pela Universidade Federal do Paraná e afirmou que ainda há uma grande necessidade de questões raciais e de gêneros serem discutidas na sociedade, para que haja uma equidade de gênero e de raça. “Todos nós temos que melhorar a sociedade. O processo é lento, mas a luta continua”, afirmou o reitor da Universidade.  

Foto: Ana Paula Santos 
Roseli Isidoro, durante o seu discurso de encerramento, certificou que Curitiba está no caminho certo e citou os dados do Mapa da Violência, que neste ano focou em mostrar números referentes à violência contra mulheres no Brasil. “Não há o que comemorar, mas estamos no caminho certo com a queda de 5% da violência contra a mulher aqui em Curitiba". Ela também comentou que a Jornada gerou discussões sobre um tema tão emblemático e importante. Roseli disse ainda que não tem dúvidas de que a 1ª Jornada Nacional Mulher Viver Sem Violência contribuiu para sensibilizar as pessoas sobre esse tema. “O objetivo é que a gente possa cada vez mais comprometer a sociedade a refletir não só sobre as causas e efeitos, mas também poder compartilhar um pouco das experiências. E, sobretudo, a gente estimular as pessoas que participaram a pensar alternativas, propostas que talvez possam se tornar serviços capazes de conferir cada dia que passa mais segurança às mulheres em situação de violência", reafirmou Roseli. 
Sobre a participação de Maria da Penha na Jornada, Roseli disse que foi de extrema importância por ela ser um símbolo da luta feminina. "A vinda dela não foi só simbólica, mas também ela tinha um propósito de nos ajudar nessa frente de sensibilização e de comprometimento das pessoas, da sociedade civil, dos órgãos promotores e realizadores da Jornada para assumirem esse causa junto conosco."

Foto: Karina Sonaglio 


Textos e fotos produzidos por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Ana Paula Santos, Catherine Baggio e Karina Sonaglio. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press. 


Estudos sobre a realidade são apresentados no workshop referente à violência sexual



 
Foto: Sarah Menezes 


O workshop Violência Sexual, que aconteceu hoje no prédio da reitoria da UFPR, foi conduzido pela enfermeira e professora Marly Marton. Durante o evento, três trabalhos sobre o tema violência sexual foram apresentados por estudantes universitárias.
O primeiro, O Corpo Feminino Invadido: Os Marcos Da Violência Sexual Desveladas Pela Enfermeira, foi realizado por Maria Lúcia Raimondo e orientado pela professora Liliana Maria Labronici. Realizado entre abril de 2013 e agosto de 2014, o estudo traz uma análise feita com treze mulheres vítimas de violência sexual, todas moradoras de Guarapuava. As análises com as mulheres só inciavam depois de cento e vinte dias de serem violentadas, pois esse é período em que as pessoas que estão ao redor dessas mulheres já se esqueceram do fato. Mas ainda é um momento em que as vítimas estão muito fragilizadas. O principal objetivo do estudo é tentar compreender o corpo feminino violentado.
O resultado desse estudo foi especificado em quatro tópicos: Feridas Existenciais – em que as marcas da violência ficam no corpo e na alma como uma tatuagem que nunca sairá; Espelho – quando elas se olham no espelho e elas se lembram da violência que sofreram; Imagem Corporal – as mulheres percebem que o corpo por si só tem uma imagem distorcida do que ele realmente é e; Diante da Imagem – as vítimas conseguem preservar a esperança de um dia, todo o sofrimento se tornar apenas o passado.
Foto: Sarah Menezes 
O segundo estudo apresentado no workshop foi realizado por Lais Maria Peres, estudante de enfermagem da Unicentro, e o tema foi Caracterização de Mulheres Vítimas de Violência Sexual Atendidas no Serviço Especial na região Central do Paraná. Lais realizou uma pesquisa quantitativa descritiva e chegou a algumas conclusões com os dados que colheu com treze mulheres vítimas de violência sexual em Guarapuava. Das treze mulheres, oito delas sofreram a violência durante o dia. Três delas conheciam o agressor e quatro das mulheres foram violentadas dentro da própria casa.
O terceiro e último estudo foi realizado por Fabiana Taisa Lovato e o tema foi Violência Conjugal Contra a Mulher: Produção Brasileira. O objetivo do trabalho foi analisar produções de artigos que tratam da violência dentro da união conjugal. Com o estudo, foi possível fazer uma revisão literária de como esse tipo de violência é abordado nos artigos publicados entre o período de agosto de 2009 e agosto de 2014. Por meio desse estudo, Fabiana percebeu que existe uma escassez de pesquisas sobre o tema, e que, em sua maioria, outros tipos de abuso na relação conjugal são  mais abordados.
Foto: Sarah Menezes
Depois das apresentações, o médico do Hospital das Clínicas, Rosires Andrade, teve um momento de diálogo e interação com as participantes do workshop. A maioria das mulheres presentes no workshop eram enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais. O doutor Rosires iniciou a fala questionando  qual era o primeiro lugar a que uma mulher violentada deveria ir: delegacia ou hospital? O médico afirmou que o hospital é o lugar que as vítimas devem ir de imediato e que lá elas precisam de acolhimento. Além disso, doutor Rosires disse que o momento em que essas mulheres chegam ao hospital elas não devem ser questionadas, e que o principal a se fazer são os exames de imediato e logo em seguida é necessário realizar a medicação correta. É importante, também, lembrou o doutor Rosires, que a mulher não seja questionada sobre onde estava, e o que estava fazendo em tal lugar, pois certos questionamentos podem parecer  um julgamento das vítimas. O médico alertou ainda sobre os riscos e as situações de vulnerabilidade que a mulher enfrenta atualmente: “As mulheres podem andar onde quiserem, quando quiserem. Podem, mas não devem por causa da vulnerabilidade existente hoje em dia.”

Textos e fotos produzidos por alunos do curso de Jornalismo da Universidade Positivo: Ana Paula dos Santos, Sarah Menezes. Trabalho sob coordenação da professora Ana Paula Mira e assessoria de imprensa da Universidade Positivo da Central Press. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As diversas faces da igualdade de gênero

A igualdade de gênero é uma questão que pode – e deve - ser abordada de diferentes maneiras. Miriam Adelman, do Núcleo de Estudos de Gênero da UFPR, apresentou sua pesquisa em um dos painéis da Jornada Nacional Mulher Viver sem Violência com uma ótica oposta ao convencional. Relacionando machismo e feminismo com os animais, a pesquisadora contextualizou a relação entre o homem e a mulher com cavalos e apontou que, atualmente, a mulher está ganhando espaço nesse segmento e se mostrando eficiente para desenvolver atividades diversas com esses animais. Miriam ainda enfatizou o empoderamento da mulher enquanto estão montadas no cavalo e concluiu que políticas públicas de caráter terapêutico podem ser formas de intervenção e de valorização da mulher.








Dando continuidade ao tema, Elza Campos, que pertence ao Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Curitiba, apresentou os efeitos do capitalismo na sociedade. A assistente social ainda afirmou que a mulher é a principal vítima desses prejuízos causados pelo capital: além de ter sua força de trabalho alienada, elas sofrem com a apropriação do próprio corpo, sendo julgadas como uma mercadoria ou um objeto. Com uma visão ampliada, Elza apontou a solidariedade como solução, esclarecendo que é preciso educar a sociedade e contribuir para a liberdade feminina.
Gina Paladino, presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento, também participou do painel e mostrou a importância do empreendedorismo feminino. Além disso, Gina apresentou o Prêmio Empreendedora Curitibana e as formas utilizadas por esse programa para valorizar e incentivar o desenvolvimento de novos negócios chefiados por mulheres.
Maria Helena Guarezi finalizou o painel apresentando o programa de equidade de gênero que ela coordena na Itaipu Binacional. Maria Helena defendeu o estudo e a inserção de mulheres em todas as áreas de serviço e incentivou as mulheres a sair da invisibilidade e lutar por direitos.