terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mulheres vítimas de violência e sua relação com a mídia é discutida por jornalistas feministas

“O assédio está enraizado na sociedade desde sempre. Fui assediada quando tinha onze anos, só porque, de repente, tinha peito e bunda. Por isso eu era tida como mulher. Eu fui tragada pelo mundo sexual sem meu próprio consentimento”. O depoimento de Juliana de Faria, criadora do site Think Olga - que tem o trabalho social na internet de criar conteúdos que reflitam a complexidade em que a mulher está inserida na sociedade – traduz perfeitamente um dos discursos que a 1ª Jornada Mulher Viver Sem Violência quer propor para o seu público: o assédio sexual e a violência contra a mulher.
Juliana de Faria divide com a plateia histórias que impulsionaram sua dedicação com o feminismo. Foto: Gabriela Menta

Juliana, que é idealizadora de campanhas como a ‘Chega de Fiu Fiu’, que combate o assédio sexual em lugares públicos; e ‘Entreviste Uma Mulher’, um banco de dados para que mulheres sejam consultadas como fontes na imprensa; se juntou a outras jornalistas feministas: Mariana Franco Ramos, do Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta, que tem o propósito de inserir na mídia a discussão de questões de gênero e feminismo; e a estudante de jornalismo da UFRJ e uma das criadoras da Rede Livres de Abuso, uma rede de comunicação sobre a dinâmica dos relacionamentos abusivos. Juntas puderam abordar temas como as propostas de fazer um mundo com menos violência, valorização do trabalho feminino, casos de abuso sexual, violência doméstica, a educação como propósito fundamental para as futuras gerações e, claro, tratamento igualitário na mídia.
Os depoimentos das palestrantes, bem como os de várias mulheres que estavam na plateia eram importantes também para os homens, apesar de haver poucos deles no auditório. “Os homens deveriam participar desse debate, eles precisam ser educados, eles precisam ser ensinados que o estupro, por exemplo, é o reflexo de uma sociedade machista.”
Primeiro assédio e histórias pessoais de abuso sexual marcam debate em primeiro dia de jornada. Foto: Gabriela Menta
Marcos Giovanella, diretor de Marketing e Comunicação da Secretaria Municipal de Comunicação Social de Curitiba, moderador da mesa, sofreu represálias das mulheres da plateia, pois, segundo muitas delas, aquele era um espaço que deveria ser ocupado apenas por elas. “Eu entendo a posição delas. Mas o outro lado dessa questão é que fico feliz porque a gente está conseguindo trazer a discussão para o ambiente masculino também. Eu sou entusiasta das causas femininas. Acho que é muito importante conseguir trazer esse debate entre gêneros, porque um gênero sozinho não consegue mudar uma visão toda da sociedade. Fiz o máximo possível para não chamar atenção aqui no palco, afinal quem são as protagonistas são as meninas”.

A questão da presença masculina na mesa principal do debate rendeu muitas discussões. E isso leva para um ponto de destaque para o que foi dito em relação à falta de voz feminina, tanto na abordagem de temas dos quais elas seriam a principal fonte, como dentro do jornalismo. “O jornalismo pode ser feito de outras formas. Como é feito hoje, não passa de uma ferramenta de empoderamento”, afirmou Juliana de Faria. “Quem define o que é vinculado nas redações são os homens em sua maioria brancos, heteros e cisgêneros. Isso acaba refletindo diretamente no que é publicado nas reportagens”, afirmou Mariana Franco.
Mariana Franco conta o que que motiva o Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta a seguir na causa feminista. Foto: Gabriela Menta
Para Bruna de Lara, muito do que se vive atualmente em relação à não participação do homem em grandes debates como a violência contra a mulher está no que cultua a mídia. A influência machista direta dentro das redações e outros veículos de comunicação acaba transformando a sociedade em um ambiente completamente ditado por regras masculinas. “Os exemplos dessa construção machista na mídia são vários: a transformação da cultura do agressor que faz com que a sua parceira se sinta culpada por não ceder de pronto às vontades dele, um ambiente perfeito para constituir seu poder e a submissão da mulher; o corpo da mulher é exibido como produto para dar audiência; a imagem da mulher é aquela que apenas quer casamento e ter filhos; as mulheres ricas são brancas; as negras, as empregadas. A violência contra a mulher em todos os aspectos já está naturalizada e romantizada na mídia”, disse Bruna de Lara.


De fato, as meninas protagonizaram um bom começo de jornada. O evento, que tem sua primeira edição, ainda contará com muitos debates calorosos. No entanto, caso você seja um leitor masculino, o que aconteceu hoje pela manhã na Universidade Positivo, sem dúvidas lhe teria servido como aula prática sobre como agir e contribuir para uma sociedade igualitária. 

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